O Brasil utiliza a vacina da farmacêutica Pfizer na campanha de imunização contra a Covid-19 desde abril deste ano, quando recebeu o primeiro lote do produto. Na bula do imunizante, há a recomendação de que as duas doses devem ser aplicadas no intervalo mínimo de 21 dias, mas o Ministério da Saúde (MS) recomendou que esse processo fosse realizado em três meses. Especialistas ouvidos pelo O POVO afirmam que o período prolongado não altera a eficácia da vacina, que tem 95% de eficácia contra a doença.
Ampliar o tempo de intervalo entre as duas doses é uma estratégia já adotada por países como a Inglaterra, que fez isso usando a AstraZeneca logo no inicio da vacinação no país. A ideia principal era ganhar tempo enquanto mais vacinas chegavam, imunizando um número maior de pessoas com a primeira dose.
Segundo Edson Teixeira, imunologista e professor no curso de medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), a recomendação do MS segue a estratégia desenvolvida no Reino Unido. O especialista frisa que há estudos mostrando uma proteção importante dada na primeira dose, embora não suficiente, e por isso o órgão decidiu ampliar essa fase para ter uma vacinação mínima, completando o esquema vacinal depois.
“O intervalo foi prolongado no Brasil porque estávamos sem vacina, como ainda estamos. O País decidiu prolongar a aplicação da segunda dose já que existem alguns estudos que demostravam que já há uma proteção importante depois da primeira dose”, pontua o docente.
Em relação à eficácia do imunizante, Edson destaca que a imunização de 95% — percentual de efetividade analisado em estudos — só acontece 14 dias após a aplicação da segunda dose da vacina. Ou seja, o tempo entre a aplicação das doses, de três meses, não interfere quanto a isso.
A neurocientista Mellanie Fontes Dutra reforça os fatores apresentados pelo imunologista, trazendo questionamentos. “Temos alguns dados preliminares para intervalos de 12 semanas com a Pfizer, quando a resposta imune é desencadeada, somados a outros dados após a primeira dose, que mostraram uma boa proteção”, destaca a especialista, que atua a frente da coordenação da Rede Análise Covid-19.
Mellanie afirma, no entanto, que existe uma preocupação quanto as variantes do vírus já existentes, que só podem ser combatidas com a aplicação das duas doses do imunizante. Nesse sentido, prolongar a aplicação da segunda dose para ampliar o número de pessoas “parcialmente” protegidas com a primeira é um risco.
“Esse intervalo mais longo requer uma conscientização ainda maior da população quanto ao uso de máscara, distanciamento físico, para evitar contaminações durante esse período de aguardo da segunda dose. E mesmo após o regime completo, as medidas devem seguir até impactarmos substancialmente a transmissão coma cobertura vacinal e medidas mitigatórias”, pontua a coordenadora.
Redução do intervalo das doses
Se no Reino Unido a estratégia de estender o intervalo entre doses de uma vacina contra Covid-19 foi utilizada nos momentos iniciais do processo de imunização, no Brasil ela ainda está sendo usada mesmo quando o País já completa quase cinco meses de campanha. Reduzir o tempo entre as aplicações poderia acelerar o processo de vacinação, mas essa não parece ser uma ação para ser tomada agora.
Isso é o que pontuou a vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Isabella Ballalai, durante entrevista à CNN na última semana. De acordo com a representante, tanto a Pfizer como a AstraZeneca apresentaram no Reino Unido, com apenas uma dose, eficácia de 85% e 90% para formas moderadas da doença e 95% para forma grave e óbitos”.
Esse resultado na Pfizer foi detectado, segundo a vice-presidente, utilizando um intervalo de três meses entre a aplicação das doses. Nesse sentido, a utilização do imunizante da forma como ocorre atualmente no Brasil seria segura. Além disso, a especialista destaca que reduzir o intervalo para acelerar o processo de vacinação só pode acontecer quando o País tiver imunizantes suficientes.
“Definir mudar ou não a estratégia de intervalo da Pfizer (só) quando tivermos a certeza de que temos vacina. Não dá para mudar acreditando no cronograma, porque ele atrasa”, defendeu ainda Ballalai se referindo aos atrasos do Programa Nacional de Imunização (PNI).





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